Construindo pra alguém que já está aqui
Ter uma filha não me deu mais coisas pra construir. Mudou o que construir significa.
Lido por um clone de IA da minha voz.
Toda a responsabilidade que eu tinha antes eu ainda tenho. O que mudou foi o motivo embaixo dela, e eu ainda não sei se consigo explicar direito.
Construir sempre foi um conceito meio abstrato pra mim. A gente constrói pra algo que ainda não chegou. Uma versão futura da própria vida, uma empresa que não existe, uma pessoa que a gente deveria virar em algum momento. É trabalho de verdade apontado pra um alvo imaginário, e na maior parte do tempo tudo bem, é assim que ambição funciona.
Aí você tem uma filha, e o alvo para de ser imaginário. Você continua construindo pro futuro, só que agora o futuro é uma pessoa específica, no quarto ao lado. O que já é o meu presente é o futuro dela. Estou construindo pra algo que está aqui, agora, e ainda não aconteceu, as duas coisas ao mesmo tempo. Não tenho um jeito mais limpo de dizer isso. É um conceito estranho, e eu parei de esperar que ele fique menos estranho.
Todo ano eu digo pra mim mesmo que esse é o ano de virada, o ano em que as coisas vão acontecer. Todo mundo faz isso. Estou fazendo de novo agora, e sinceramente acredito que dessa vez é, que é exatamente o que acreditei da última vez. A diferença é que o prazo não é mais meu. Pouco tempo atrás a Flora estava nascendo, eu estava saindo da casa dos meus pais, assumindo uma vida nova e, acho, uma pessoa nova. O relógio de tudo isso corre com ou sem eu me sentir pronto.
Então eu tenho construído muita coisa esse ano. Não porque o plano ficou mais claro. Porque a pessoa pra quem eu construo ficou.